Compreender o medo

Compreender o medo: da normalidade à doença

Actualmente, o medo constitui uma das preocupações mais comuns a pais, filhos, crianças, adolescentes, e até mesmo adultos. De uma forma mais ou menos intensa, todos nós já sentimos medo. Apesar da extrema diversidade situacional, individual e cultural, e mesmo das diferenças decorrentes das fases do ciclo de vida de cada pessoa, todos nós temos a capacidade de antecipar com um elevado nível de sucesso como determinados objectos, estímulos e situações, desencadeiam padrões semelhantes de resposta.

Por exemplo, um ruído estridente e súbito, para alguém que se encontra numa rua deserta, sozinha, à noite, desencadeará, concerteza, uma necessidade intensa de fugir da situação. A aceleração cardíaca, respiração ofegante, tremor das mãos, aceleramento do passo ou, pelo contrário, a terrível sensação de paralisia perante o que parece ameaçador, correspondem a um conjunto de respostas adaptativas especíiacute;ficas que concedem vantagens próprias para a capacidade de lidar com situações diferenciadas. Este complexo de respostas somáticas e cognitivas que protegem a pessoa perante o perigo ou ameaça percebida, constituindo, por efeito, um sistema de alarme, é, globalmente, designado por medo.

Este sistema de alarme, a multiplicidade de ameaças possíveis e a diversidade das suas exigências, pressupõe que este sistema desempenhe funções específicas. Por exemplo, a resposta de medo desencadeada por um elevador não deverá ser a mesma que a resposta desencadeada pela antecipação da proximidade de um assaltante; a reacção de rubor perante um grupo de amigos é necessariamente diferente da reacção de desmaio face à visualização de sangue ou ferimentos.

Partindo do pressuposto de que as funções do medo envolvem a avaliação quer da ameaça quer das competências de cada pessoa para lidar com a mesma, isto é, das características da situação ameaçadora e da pessoa ameaçada, assiste-se, normalmente, a um efeito amplificador na percepção das qualidades dessa situação. Esta interpretação, mais ou menos catastrófica de uma situação inicialmente normal, deve ser entendida numa lógica de necessidade de acção rápida. Por exemplo, uma pessoa com medo de ratos, quando confrontada com o pequeno animal, antecipa que este se aproximará ou até mesmo a atacará, quando, na realidade, os ratos, na presença de um ser humano, tendem a fugir para garante da sua própria sobrevivência.

A percepção exagerada da ameaça resulta num padrão de activação que engloba tanto aspectos perceptivos (aumento da dilatação da pupila ocular, activação dos sistemas respiratórios e cardiovascular para facilitar a oxigenação dos músculos, suores frios, tremor, …) quanto comportamentos motores de evitamento ou fuga, imobilidade, submissão ou defesa agressiva. O tipo de resposta defensiva activada tem, por isso, uma relação funcional com o tipo de ameaça detectada. Por exemplo, a reacção de timidez é natural numa situação de entrevista que subentende uma situação de avaliação social; a reacção de imobilidade é funcional perante um lugar alto ou precipício, assim como a fuga ou evitamento constituirão respostas mais apropriadas em situações que envolvem animais percebidos como ameaçadores (cães, aranhas, … ).

Se o medo consiste numa defesa natural das pessoas face ao perigo, torna-se também num problema quando assume uma intensidade exagerada e se transforma numa doença complexa que requer tratamento. Este tipo de medo designa-se por patológico e é limitativo do bom funcionamento das pessoas na medida em que causa desconforto, aflição, e é acompanhado por sintomas físicos desagradáveis e perturbadores. Noutro sentido, a pessoa não lhe reconhece uma razão objectiva, racional, pelo que analisa o que sente e pensa como sendo absurdo, ainda que dificilmente controlável.

Inúmeras investigações efectuadas nesta área apontam para a existência de um componente genético para o medo, ainda que refiram que a educação e os processos de socialização desempenham um papel determinador na forma de lidar com este tipo de problemas e vulnerabilidades. Assim, ter medo é bom e necessário, mas há que ter consciência de que se pode tornar num sentimento extremamente patológico pelo que pode e deve ser, tanto quanto possível, prevenido.

Sandra Santos Vilaça, 2006