O nascimento de um novo irmão

Todas as crianças, e até mesmo adolescentes, revelam algum desconforto com o nascimento de um novo irmão e é natural que assim seja. Afinal, trata-se de um processo de integração de um novo elemento no seio de uma família já constituída, com regras estabelecidas, e modos de comunicação e suporte muito próprios.

Por outro lado, de uma forma ou de outra, todos os pais temem as reacções dos filhos ao nascimento de um novo irmão. Temem não conseguir lidar com a nova realidade, na medida em que, após o nascimento, deixam de ficar centrados num único filho ou necessitam de dividir as suas atenções entre os filhos.

Antecipam sofrimento, alterações de comportamento, rejeição, entre outras reacções negativas. E, com efeito, o nascimento de outros filhos contempla alegrias e satisfação, mas também algumas tensões familiares que se reportam tanto à relação que se estabelece entre os filhos que já existem e o novo bebé, como à dinâmica do próprio casal.

Em geral, pode-se afirmar que há duas coisas que as crianças mais velhas tendem a fazer após o nascimento de um irmão. Ou regridem, porque instintivamente procuram recuperar a atenção dos pais por manifestações próprias de um bebé. Ou denotam ciúmes ou mesmo hostilidade para o novo irmão. Qualquer uma destas reacções é normal e deve ser entendida com a naturalidade que for possível. A problematização destas reacções constitui frequentemente um motivo de consulta em psicoterapia, sendo que os pais procuram ajuda no sentido de compreender o comportamento infantil e diluir a tensão gerada.

É normal que uma criança de quatro anos, por exemplo, regrida a partir do momento em que nasce o irmão. Determinados comportamentos, como utilizar biberão para beber o leite, querer dormir no quarto dos pais, reutilizar a chucha, entre outros, podem se tornar reincidentes. É nestas alturas que se instala a confusão nos pais que se interrogam sobre o que devem fazer, o que devem proibir ou permitir. Ficam divididos entre educar o filho mais velho para que este compreenda que se tem de comportar em conformidade com a sua idade e, por outro lado, o sentimento de que este filho pode estar num processo de carência afectiva consequente aos seus novos papéis. Aos pais pede-se que percebam que todas as crianças, que acabam de ter um irmão, precisam, de alguma forma, de assegurar o seu lugar no mundo e, mais especificamente, no seu coração. Não se trata de ficarem mais birrentas ou caprichosas, mas tão-somente de precisarem de se ressegurarem que continuam a ser amadas como eram.

Não permitir que os filhos mais velhos façam esta regressão temporária é um erro terrível. A regressão deve ser entendida numa lógica condicional do tipo: “de que me vale não usar fraldas, comportar-me bem, comer com o garfo e faca, se o bebé não faz nada disto e consegue ter todas as atenções do meu pai e da minha mãe?”, como explica Fitzhugh Dodson, pediatra norte-americano. Assim, os pais não só devem permitir esta regressão como aceitá-la. Se a criança mais velha mostra desejo de beber leite pelo biberão, os pais podem satisfazer esta vontade sem dar muita importância e tendo em conta que, ao aceitar este comportamento temporário, estão a permitir que a criança se sinta aceite. Nesse sentido, não só não há que temer as regressões, como há que perceber que elas acontecem num tempo próprio com funções específicas. Tratam-se de formas da criança se sentir mais amada e suportada que servem o próprio crescimento. Se não for contrariada, a criança rapidamente assume o seu comportamento normal e até, de forma surpreendente, começa a exibir comportamentos e reacções que reflectem crescimento. Pelo contrário, não aceitar esta regressão como natural e exigir da criança que se comporte quase como um pequeno adulto, é um erro crasso que pode trazer sofrimento a todos os elementos da família.

Da mesma forma, os pais erram quando condenam os filhos pelos seus sentimentos negativos porque, sem intenção, estão a obrigar o filho a gostar do irmão e aceitá-lo num tempo interior que é o deles mas que não é o dos filhos. Comummente, surgem comentários do tipo: “como é que é possível que não gostes do teu irmão? Ele é tão lindo!”. Concerteza que as reacções negativas dos filhos mais velhos constituem factores de stress para toda a família. Contudo, é preciso desmontar estas reacções e recorrer a estratégias em que a criança mais velha perceba que os pais aceitam o que está a sentir e compreendam os seus comportamentos como tentativas de afirmação perante um novo elemento.

Dodson sugere que os pais ajudem os filhos mais velhos a lidarem com os seus sentimentos negativos a partir da criação de laços de cumplicidade. Por um lado, a cumplicidade entre ambos permite que estes não se sintam desprotegidos ou colocados de parte; por outro, confirmam o seu espaço, e o seu lugar naquela família e, mais especificamente, no coração dos pais. Tornar os filhos mais velhos aliados na própria situação de tratamento, cuidados, brincadeiras, comentar aspectos como “o mano às vezes é um bocado chato porque chora e dá muito trabalho, nós percebemos!”, valorizar o próprio facto da criança mais velha já se comportar de outro modo, constituem pequenos gestos que se podem revelar muito úteis e que podem marcar a diferença na maneira como se vive o nascimento de um segundo ou terceiro filho.

Por último, importa referir que os pais se devem preocupar com as regressões e os comportamentos hostis se estes se perpetuarem. Neste caso, podem sempre recorrer à ajuda especializada de um psicoterapeuta ou psicólogo clínico. Caso contrário, são reacções saudáveis que contribuirão, definitivamente, para o crescimento da própria família.