Perturbação de deficit de atenção

É rara a semana em que, em jornais nacionais ou revistas internacionais, não surja publicado algum artigo sobre a Perturbação de Défice de Atenção (PDA). Tem constituído conteúdo da literatura especializada, assim como de programas televisivos que, de algum modo, procuram sensibilizar para a compreensão de um quadro que, apesar de ser cada vez mais comum, é igualmente muito pouco percebido.

A maior parte dos pais das crianças com PDA sente-se bastante desacompanhada e incompreendida. É frequente assumirem que os problemas que eles e os seus filhos sentem são únicos. As mães, em particular, sentem-se distantes das mães das outras crianças, rejeitadas, tristes, e repletas de dúvidas acerca da sua capacidade para educar. Se, actualmente, já é suficientemente difícil educar uma criança ou um adolescente, educar um filho que apresenta PDA revela-se um desafio extremamente doloroso.

Com efeito, a PDA é definida por uma perturbação de natureza neurobiológica que se caracteriza pelo desenvolvimento inadequado das capacidades de atenção. Apesar de não ser tão notória quanto a hiperactividade ou a impulsividade, o défice atencional é normalmente um sintoma preocupante no desempenho escolar, na medida em que se traduz em estados de desatenção em que a criança exibe, pelo menos, seis dos seguintes critérios:

  • não presta muita atenção aos pormenores ou comete erros por descuido nas tarefas escolas, nos trabalhos ou noutras actividades;
  • dificuldade em fixar a atenção nas tarefas ou nas actividades lúdicas;
  • parece não ouvir o que lhe dizem directamente;
  • Tem dificuldade em seguir instruções e não conclui os trabalhos escolares, as tarefas ou os deveres no local de trabalho (não devido a desobediência ou a não compreender as instruções);
  • mostra dificuldade em organizar tarefas e actividades;
  • evita, não gosta ou mostra-se relutante em se envolver em tarefas que requeiram esforço mental continuado (tal como os trabalhos escolares ou os trabalhos de casa);
  • perde com frequência coisas necessárias para a realização das tarefas ou de actividades (por exemplo, brinquedos, lápis, livros, casaco,…);
  • distrai-se com facilidade e frequência com estímulos irrelevantes;
  • esquece-se com frequência das actividades diárias.

Apesar de predominantemente em estado de desatenção, a criança consegue fixar-se em actividades que vão de encontro aos seus interesses. Efectivamente, é comum os pais comentarem que os filhos demonstram uma ampla capacidade de atenção em actividades que lhe são extremamente agradáveis, como as que envolvem jogos de vídeo, playstation ou ver televisão. Frequentemente, e enquanto o quadro clínico não se encontra devidamente diagnosticado, estas crianças são criticadas e castigadas exactamente por manifestarem atenção apenas a este tipo de actividades. Ficam sujeitas a comentários do tipo: “só tem atenção para o que não deve”; “se ele consegue estar 1 hora sentado a ver televisão, porque é que não consegue estar 10 minutos a fazer os trabalhos de casa ou nunca põe a mesa como deve ser? É só porque não quer…”.

Em actividades em que a criança ou o adolescente está a ser visualizada de perto, como por exemplo quando se encontra sozinha com um professor, a sua capacidade de atenção pode ser equiparável a uma criança da sua idade. Daí que se sugira acompanhamento tão individualizado quanto possível, a nível escolar, e que se defenda que estes alunos devem beneficiar de programas de ensino e avaliação especial. Com efeito, são crianças que apresentam níveis de inteligência dentro da média ou acima da média esperada para a sua faixa etária, mas que não conseguem demonstrar as suas capacidades devido à sua própria perturbação.

Importa sensibilizar para este tipo de perturbação na medida em que se demonstra em vários contextos e tende a ser cada vez mais vulgar. Não raramente, encontramos pais que se queixam do facto dos seus filhos evidenciarem impaciência e, ocasionalmente, falta de controlo, quando vão assistir a uma sessão de cinema. Os pais e professores comentam estas crianças não conseguem acompanhar as conversas e mostram-se desatentas. Frequentemente, os pais referem que se privam de idas ao restaurante ou a casa de amigos, por exemplo, porque não conseguem que os filhos permaneçam sossegados como as outras crianças. Estas crianças tendem a ser descritas como desorganizadas e descuidadas, tropeçando ou embatendo facilmente em algo que se lhes depare à sua frente. Além de todas as consequências imediatas, como sejam maus resultados escolares, incapacidade em permanecer numa actividade desportiva, desprezo social, entre outras, a cronicidade desta perturbação compromete a própria adultez. Caso estas crianças e adolescentes não sejam acompanhadas psicoterapeuticamente, acabam por se revelar, enquanto adultos, pessoas irresponsáveis e extremamente distraídas. Por outras palavras, são os indivíduos em relação aos quais vulgarmente comentamos “só não perdem a cabeça porque a têm agarrada ao pescoço”, “não se pode confiar, ele perde tudo, esquece-se de tudo”. Com efeito, é importante realçar que se trata de um problema que pode afectar a vida quotidiana de um indivíduo, tanto a nível familiar, social, ocupacional, quanto profissional. Não raramente, são pessoas que mantém um perfil instável de emprego, que permanecem pouco tempo num mesmo local, com o mesmo companheiro amoroso ou com o mesmo grupo de amigos.

Até aos últimos anos, o défice de atenção encontrava-se sobremaneira associado à Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção. Todavia, actualmente, pais e professores devem assumir uma atitude activa de despiste quando a criança assume um perfil de défice de atenção dado que, apesar de não ser tão visível em termos de comportamento, afecta igualmente significativamente o desenvolvimento normal da criança. Por esse motivo, devem procurar auxílio junto de um Psicólogo Clínico para que, diagnosticamente diferenciada, a criança ou adolescente possa merecer o acompanhamento de que necessita.

A maior parte dos pais das crianças com Perturbação de Défice de Atenção sente-se bastante desacompanhada e incompreendida. É frequente assumirem que os problemas que eles e os seus filhos sentem são únicos. As mães, em particular, sentem-se distantes das mães das outras crianças, rejeitadas, tristes, e cheias de dúvidas acerca da sua capacidade para educar. Se, actualmente, já é suficientemente difícil educar uma criança ou um adolescente, educar um filho que apresenta PDA revela-se um desafio extremamente dificil de ser bem sucedido.

Sandra Santos Vilaça, 2006