Saber dizer não

Saber dizer não

Ser Assertivo – Saber dizer “NÃO”!

A assertividade, conceito que tem sido objecto de estudo nos últimos trinta anos, é uma palavra aparentemente nova na sociedade portuguesa.

Contudo, apela a uma condição essencial à boa saúde mental e que deve ser promovida em todas as idades e por todos.

A ideia central da assertividade remete para a expressão integral de nós próprios de uma forma afirmativa. Nesse sentido, importa saber dizer “não” e dizer “não” sem a concorrência dum imenso sentimento de culpa. Muitos pais referem que têm dificuldade em dizer “não” aos seus filhos quando consideram desadequado o que estes insistentemente reivindicam; empregados angustiados têm dificuldade em dizer “não” aos seus patrões por temerem as suas consequências; políticos amarrados a ideais não conseguem dizer “não” quando, na realidade, sentem, em consciência, que o deveriam fazer… E, contudo, saber dizer “não” não é mais do que se defender e se afirmar de uma forma positiva.

Não se trata de saber dizer “não” por negativismo ou desafio infundamentado. Pelo contr&aacutaacute;rio, é saber expressar ao mundo o que melhor satisfaz as nossas necessidades e, dessa forma, sentirmo-nos melhor connosco próprios e com os outros. Exemplos de pessoas afirmativas são todas aquelas que são capazes de declarar adequadamente o seu afecto em família, invocar a ajuda de um amigo ou fazer um pedido ao patrão. Por outras palavras, são todas aquelas pessoas que são capazes de exprimir os seus direitos nos seus diversos domínios de vida…

É insustentável a ideia de que se pode aceitar tudo. Torna-se, portanto, extremamente importante perceber a necessidade do equilíbrio entre a não-aceitação e a sua expressão adequada… entre o “não” que conduz à rejeição do outro e o “não” afirmativo. Por conseguinte, é igualmente essencial atender à forma como se formula este “não”. Por exemplo, um pai pode rejeitar um pedido do seu filho adolescente de diversas maneiras. Pode dizer simplesmente que “não” e, concerteza, estará a despoletar mais uma das milionésimas guerras domésticas; se, pelo contrário, convictamente, argumentar “não é possível neste momento”, deixando em aberto a possibilidade de concretizar o desejo do filho e, simultaneamente, tornando negociável o seu ponto de vista, não só criará a oportunidade de se afirmar diante do mesmo como promoverá a sua consciência de que se podem fazer determinados pedidos e que estes não têm necessariamente de ser seguidos por represálias ou consequências negativas. Trata-se de estimular o outro a pensar, a defender-se e, por conseguinte, a afirmar-se da forma mais positiva que a sua fase de desenvolvimento pessoal o permitir. Em suma, trata-se de um acto público em que cada um considera as necessidades e direitos de si e dos outros e, democraticamente, entra num processo negocial de cedências, correspondências, satisfação, convergência de interesses comuns.

Saber dizer “não” é, por isso, uma expressão de assertividade. Renunciar à afirmação dos nossos direitos é abdicar da importância do direito a uma expressão saudável e sólida da nossa identidade. Há quem não defenda os seus direitos porque se encontra extremamente preocupado com o que os outros pensam; pelo contrário, há os que desenrolam um conjunto de comportamentos agressivos e não se incomodam com os danos que causam nos outros. Na regulação destes estilos extremos, passivo e agressivo, deve permanecer um equilíbrio de forças, o qual é extremamente complexo e requer um longo trabalho de aprendizagem e de interiorização pessoal. No primeiro caso, à medida que a pessoa for treinando, poderá aperceber-se de que pode fazer uma pergunta inócua numa sala de aula sem ter medo de incomodar o professor. No caso do estilo mais agressivo, o qual exige a interiorização do respeito pelos outros, poderá passar simplesmente por saber dizer “bom dia” ou “obrigado”.

Todos nós, pela própria educação que tivemos, demonstramos, por vezes, dificuldade em corresponder à nossa necessidade de assertividade. Por conseguinte, todos nós, de uma forma ou de outra, devemos fazer ajustes e reflectir sobre as nossas próprias atitudes. Desde miúdos, em casa e na escola, somos confrontados com a ideia de que não devemos exprimir tudo o que pensamos ou sentimos. No entanto, dizem-nos rigorosamente nada sobre o que significa este “tudo”. Ora, é fundamental que possamos e saibamos dizer aos outros que gostamos deles, da mesma forma que podemos confessar que houve algo naquela pessoa que nos desagradou. Em ambos os casos, estamos a ser auto-afirmativos ou, nas palavras do Professor Telmo Baptista, professor universitário e psicólogo clíiacute;nico, estaremos a cumprir “autocuidados indispensáveis para construir uma imagem positiva de nós próprios, sem medo de enfrentar o mundo”. Em ambos os casos, estaremos a regular a relação connosco próprios e com os outros… estaremos a ser assertivos!

Sandra Santos Vilaça, 2006